quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"Os Ombros Suportam o Mundo" - Carlos Drummond De Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

P.S: Drummond, sempre Drummond... Um pouco mais sobre ele? Passe aqui no Releituras.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Popstar" - João Penca e Seus Miquinhos Amestrados

Peguei uma onda "Manera"
Dei "Cutback, Hang Five Hang Ten"
Eu sou o melhor surfista da minha rua.

Não tenho saco prá escola
As minhas notas sempre são vermelhas
Mas eu não tô nem aí arrumo as malas
E me mando pro Hawaii.

A sua mãe não entende
O feeling da minha guitarra no dez
E vive vendo novela no onze.

Acho que ninguém me entende
Me dizem que eu sou "New Wave" demais
Eu vou na onda que mais alto me levar
Me levar...

Sua mãe diz que eu sou vagabundo
E o seu pai é tão esnobe:
"Esse garoto não combina contigo
A gente arruma prá você um bom partido".

Mas quando eu virar um astro
Com minha guitarra e minha prancha
Ao lado quero ver na hora do jantar
O seu pai sentado à mesa
Ao lado, de um "Pop Star".

E o neto dele também vai ser "New Wave'
Filho de "Pop Star" "Pop Star" é
E vamos todos morar no Hawaii
Tocar guitarra às três da manhã
E a vizinhança de cabelo em pé
E da maneira que a gente quiser.

P.S: Música do clássico João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, que ganhou uma versão rockeira na mão do Evandro Mesquita, que você consegue
aqui. Ah...a juventude que passa e vai embora :))

domingo, 26 de julho de 2009

"Inocência" - Mundo Livre S/A

Azarar sem violência, mesmo que seja só por maldade
Paquerar com liberdade mas na maior inocência
Namorar sem malandragem, estraga o filme dá prejuízo
Copular sem sacanagem é um atalho pro paraíso
Na inocência
Sem sacanagem
Só por maldade
Mas pode ir dando adeus, a galinhagem, a malandragem e as cantadas baratas
Você não é mais dono do seu nariz
O aprendiz de Dom Juan foi aposentado

Frequentar a casa dela, sinal de alerta, perigo a vista
Conhecer toda a família, oléo na pista, olha o barranco
Expandir o patrimônio, não digo nada é um aviso
Contrair o matrimônio, é um atalho, não digo nada
Sem sacanagem
É um atalho
Pro manicômio

É hora de se despedir dos amigos, das baladas homéricas e das farras intermináveis
Você não é mais dono do seu tempo
Diga adeus ao mundo dos livres, seus dias de rei da noite definitivamente ficaram no passado
Mais o legal é quando mesmo depois de alguns anos de clausura, você acorda ao lado da sua amada e se descobre um felizardo
O legal man, é saber que todos os acidentes de percurso valem a pena quando lhe aproximam ainda mais da pessoa certa
O legal é ir dormir sabendo que ao acordar você poderá mais uma vez contar todas as pintinhas e sinais da pele da sua escolhida, só pra ter certeza
Só pra ter certeza que não esqueceu nada, que nada saiu da sua ordem, o universo e os elementos continuam conspirando a seu favor
E você continua reinando, reinando enquanto dorme!

P.S: Música do disco "O Outro Lado de Manuela Rosário" de 2000. Foda. Baixe
aqui.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Segundas Chances

A noite já caia há algumas horas, na verdade a madrugada já se aproximava e viam-se cada vez menos pessoas andando pela rua. O movimento rareava a partir do avançado da hora, pensei calmamente. Mas nem sempre foi assim, lembro de dias que ficarão para sempre guardados na memória em que bons amigos (nessa época, ainda eram bons) saiam pela cidade de cinema em cinema, de bar em bar, de praça em praça. Hoje o medo já não permite tal ousadia.
Peguei o ônibus depois de estar no ponto há quase uma hora. Nos últimos dias tinha uma súbita sensação de descontentamento tomando meu corpo, tudo parecia como um filme sem graça que pegamos em um canal de tv aberta zapeando sem sono pela madrugada. Com o celular devidamente escondido, liguei o mp3 player já que a viagem seria longa. A primeira música que tocou foi “Ain't No Cure For Love” do Leonard Cohen. Destino? Acho que não. Mas esse cara sabe das coisas.
Enquanto o ônibus entrava entre ruas mal iluminadas e passava por casais se agarrando na frente do cemitério e pequenas novas sensações da noite, com carros e seus sons ligados em alto volume tocando alguma canção sem muita qualidade, minha cabeça voava pelos acontecimentos dos últimos meses, de como minha inesgotável capacidade de ser covarde tinha acabado com uma das poucas coisas que ainda me fazia bem na vida. Susana desapareça fazia meses e meu orgulho impedia de procurá-la.
Na verdade, acho que foi isso que acabei me tornando no decorrer da minha caminhada: um medroso profissional. Tá certo que alguns medos eu entendia como normais, até porque a cidade nunca esteve tão perigosa e os últimos três ou quatro assaltos, com um inclusive me abrindo uma enorme ferida na cabeça, não favorecia muito o cenário de otimismo. No entanto, outros medos foi a vida que proporcionou e eu sempre louco por desculpas que me justificasse, as agarrei como pude.
Enquanto Leonard Cohen seguia cantando no mp3 player e a cidade mostrava suas ruas que abarcavam sentimentos dispares como satisfação e melancolia, alegria e tristeza, o celular pula as canções e acusa a mensagem que leio em seguida: “Estou ouvindo o disco do Wilco que você gosta e lembrei de ti. Me liga. Já faz muito tempo. Bjos. Susana”. A surpresa se transformou em desconfiança. Seria uma segunda chance? Foi quando “Hey, That's No Way To Say Goodbye” invadiu os fones e decidi responder a mensagem, enquanto pensava que esse Cohen sabe mesmo das coisas.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Olhos

“Ah....são os olhos...” Sem dúvida, não hesito em nenhum momento em dizer que são os olhos. Eles são os responsáveis por deixar minha alma desnuda e discernir entre o mero belo e o belo que dura. São eles que me surpreendem a cada momento, por mais que ame bundas e tudo mais, mas são os olhos que mexem de verdade; é neles que consigo tentar acreditar no que pode acontecer, ao que me vou me submeter.
Foi assim com Maura. Na verdade e falando bem sério nunca pensei em me apaixonar por alguém de nome Maura, um nome tão sério, tão distante de mim. Quando pensava em alguém quando era jovem, logo me via na cabeça nomes descolados, mas nada como Maura. E então o que acontece? Um belo dia desço a Conselheiro Furtado para para ver um livro, quando uma moça não tão bela, não tão feia, me faz a ridícula pergunta; “Que horas são”?”.
“Horas, que horas?” E não parei de olhá-la; olhos fortes, castanhos, pesados, que pareciam carregar toda a responsabilidade do mundo em suas costas, quando ela me disse depois de três segundos ou quatro minutos: “Aconteceu alguma coisa?” E eu no meu absurdo inconsciente nerd, respondi besteiras gaguejando entre comparações com Nico e Marisa Monte, quando me dei conta de um sorriso esplendoroso do outro lado. “Ah, são os olhos...mas depois um sorriso...”
E como tudo que acontece uma vez na vida, a fábula passava na frente, o conto de fadas que você nunca acreditou que existia lhe rouba a própria existência. As dívidas, problemas, a crise do time no campeonato, o disco ruim da sua banda, a promoção que nunca vem, parecem que não existem mais, o mundo mudou e você acabou de inventar uma nova realidade, que passa, começa e continua através do puro soluçar de dois olhos em um dia comum.
Penso até com uma certa loucura da minha hoje parca mente, que triste são aqueles que se contentam com as bundas, peitos e reboladas. Eles não sabem ao certo como sua alegria é fugaz, efêmera. Não sabem que com o tempo, essas bundas e peitos caem e o rebolado passa a ser sem graça, mas os olhos, ah...os olhos, esses são eternos. E enquanto estou aqui com lágrimas escorrendo, procuro dentro desse caixão sem graça os olhos da minha Maura e não consigo mais enxergar seu brilho, e percebo que minha alma se foi no exato momento que eles não abrirão mais.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Hey, That's No Way To Say Goodbye - Leonard Cohen

I loved you in the morning
Our kisses deep and warm
Your head upon the pillow
Like a sleepy golden storm.
Yes, many loved before us
I know that we are not new,
In city and in forest
They smiled like me and you,
But now it's come to distances
And both of us must try,
Your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I'm not looking for another
As I wander in my time,
Walk me to the corner
Our steps will always rhyme,
You know my love goes with you
As your love stays with me,
It's just the way it changes
Like the shoreline and the sea,
But let's not talk of love or chains
And things we can't untie,
Your eyes are soft with sorrow,
Hey, that's no way to say goodbye.

I loved you in the morning
Our kisses deep and warm,
Your head upon the pillow
Like a sleepy golden storm.
Yes, many loved before us
I know that we are not new,
In city and in forest
They smiled like me and you
But let's not talk of love or chains
And things we can't untie,
Your eyes are soft with sorrow
Hey, that's no way to say goodbye.
P.S: Uma das canções mais lindas do grande Leonard Cohen, que esse ano lançou um belíssimo disco ao vivo. Uma canção imortal.

sábado, 18 de abril de 2009

Jogos Sem Vencedor

E tudo poderia ser tão mais fácil
Se os jogos, os ódios, o ópio fossem cancelados
Sem as mil facetas, e algumas agradaveis surpresas

Tudo poderia realmente acontecer
Fantasmas do passado jogados ao lado
Crença em um futuro que não sabemos ao certo

E por tudo seria bom novamente passar
Os momentos em que os dias teriam luz
As vezes que pequenas coisas salvariam a vida

Mas, para você infelizmente não pode ser assim
Tudo se resume a um eterna partida sem vencedor
E assim o futuro passa a estar cada vez mais distante


Triste assim.

domingo, 22 de março de 2009

"O Amor Acaba" - Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
P.S: Enquanto a inspiração e o tempo andam em falta, segue uma crônica bem bacana do Paulo Mendes Campos.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Tiny Dancer" - Elton John

Garota de jeans azul, dama de Los Angeles
Costureira para a banda
Olhos bonitos, sorriso de pirata
Você se casou com o músico
Bailarina, você devia ter visto ela dançando areia
E agora ela está em mim, sempre comigo
Pequena dançarina na minha mão
Jesus estranha na rua

Segurando ingressos vendidos por Deus
Voltando pra trás, ela só ri
A rua não é tão ruim assim
O pianista fez sua apresentação

No auditório
Olhando pra ele ela canta as músicas
As palavras que ela sabeAs melodias ela cantarola
Mas oh, como isso parece tão real

Deitada aqui comigo sem ninguém por perto
Só você e você pode me ouvir
Quando eu digo calmo, devagar
Me abrace forte, pequena dançarina

Conte as luzes da estrada
Me deite nas folhas brancas
Você teve um dia ocupado hoje
Garota de jeans azul, dama de Los Angeles

Costureira para a banda
Olhos bonitos, sorriso de pirata
Você se casou com o músico
Bailarina, você devia ter visto ela dançando areia
E agora ela está em mim, sempre comigo
Pequena dançarina na minha mão
Mas oh, como isso parece tão real

Deitada aqui comigo sem ninguém por perto
Só você e você pode me ouvir
Quando eu digo calmo, devagar
P.S: "...para uma amiga querida..."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

"(What's So Funny 'Bout) Peace, Love And Understanding?"

Enquanto eu caminho através deste mundo perverso,
Procurando por luz na escuridão da insanidade,
Eu pergunto a mim mesmo
Toda a esperança está perdida?
Existe somente dor e ódio, e miséria?

E a cada momento que eu me sinto assim por dentro,
Há uma coisa que quero saber:
Qual a graça em paz, amor e compreensão?
Qual a graça em paz, amor e compreensão?

E enquanto eu caminhava através desses tempos difíceis
Meu espírito ficava desanimado às vezes
Então, onde está a força?
E quem é a confiança?
E onde está a harmonia?
Doce harmonia.

Porque a cada momento que eu sinto isso indo embora,
Me dá vontade de chorar.
Qual a graça em paz, amor e compreensão?
Qual a graça em paz, amor e compreensão?

Então, onde está a força?
E quem é a confiança?
E onde está a harmonia?
Doce harmonia.

Porque a cada momento que eu sinto isso indo embora,
Me dá vontade de chorar.
Qual a graça em paz, amor e compreensão?
Qual a graça em paz, amor e compreensão?

Obs: "(What's So Funny 'Bout) Peace, Love And Understanding?", canção de Nick Lowe, imortalizada por Elvis Costello. Retrato fiel dos últimos dias e de muitos outros que virão, infelizmente.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Povoando Desertos

E afastou-se
Sem mais nem porquê, sem perguntas ou respostas
Simplesmente afastou-se
Se escondeu
Sem dar chance para o acaso, flertando com o fracasso

E viveu
Como poucos poderiam imaginar, como uma ilusão
Inconscientemente viveu
Se martirizando
Mas seguindo em frente, adequando-se a corrente

E escreveu
Livros que ninguém quis, livros sem pretensões
Solenemente escreveu
Se enfrentando
Derrotando monstros febris, matando criaturas vis

E um belo dia morreu
Sem que o mundo soubesse, sem ninguém sentir
Aparentemente morreu
Se eternizando
Entrando nos corações abertos, povoando desertos

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

"Preceitos básicos e avisos adicionais a jovens escroques" - Jim Dodge

Não tente roubar uma vaca maior que sua caçamba.
Não mostre seu rabo pra Polícia Rodoviária.
Negociatas longas com grana curta é prejuízo na certa.
Não confunda o Evangelho com a Igreja.
Nunca dedure familiares ou amigos.
Evite morar em qualquer lugar onde não dê pra mijar da porta da frente.
Só porque é simples não significa que é fácil.
Não deixe seu olho grande preencher cheques que sua barriga vazia não possa bancar.
Se você não a quer, não a provoque.
Não estacione entre dois cachorrões jogando sujo.
Qualquer um amassa tomates; o foda é fazer o molho.
Nunca se é pobre demais para deixar de prestar atenção.
Não remoa por aí suas paranóias.
Nunca durma com uma mulher que considere isso um favor.
Se for atingido por um valentão, dê-lhe a outra face. Se rolar de novo, atire no filho da puta.
Manter é sempre duas vezes mais difícil do que conseguir.
Nunca atravesse uma cidade pequena a 120 por hora com a filhota do xerife nua na garupa.
Nunca registre o preto no branco.
Se você não está confuso então não tá entendendo nada.
Amar é sempre mais difícil do que parece.
P.S:
O escritor americano Jim Dodge é muito, mas muito foda. :)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"Em Algum Lugar Onde Nunca Estive" - e.e. cummings

em algum lugar onde nunca estive, e felizmente aquém

de qualquer experiência, teus olhos guardam seu silêncio:

em teu gesto mais frágil há coisas que me envolvem

ou que não posso tocar porque estão muito próximas


teu olhar mais leve facilmente me descerra

embora eu me tenha fechado como dedos,

e me entreabres sempre, pétala por pétala, como a primavera

(por toques habilidosos, misteriosamente) abre a primeira rosa


ou se teu desejo é me fechar, eu e

minha vida nos fecharemos formosa e rapidamente

como quando o coração desta flor imagina

que a neve - cuidadosamente - está caindo em toda a parte;


nada do que podemos perceber neste mundo se compara

ao poder de tua intensa fragilidade; cuja textura

me compromete com a cor de seus países

e me entrega para a morte cada vez que respiro


(nada sei do que te faz tão poderosa

ao me mover; mas algo em mim compreende apenas

que a voz de teus olhos é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva, tem as mãos tão pequenas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quer pagar quanto?

Escutar música no final dos anos 80 e começo dos 90 era uma tarefa repleta de dificuldades, mas imensamente prazerosa. Ao caçar os vinis e repassar para as fitas cassete, tudo era uma grande aventura. A Revista Bizz era a bíblia nacional e era comum três ou quatro amigos se reunirem para comprar um novo disco. Épocas de governo Sarney, desencanto com o Collor, recessão com o Itamar, que detonou a cultura de modo geral por aqui.

Esse tempo ficou para trás. Hoje em dia ainda me pego surpreendido vez ou outra com a facilidade que encontro o novo trabalho de um artista pela internet. Claro que o acesso que se tem hoje, permite conhecer em tempo real em termos mundiais, coisa que anos atrás só era possível com os grandes lançamentos. Mas a pergunta que sempre fica presente em diversos setores e localidades é: onde isso vai parar?

O disco como conhecíamos está com seus dias contados, deitado em alguma UTI esperando a sua hora chegar. As gravadoras que tanto lucraram com os artistas em outras épocas, hoje está senil e tenta se adaptar a um mundo que parece não lhe querer. Na outra ponta temos o público que hoje tem música de graça ou então a preços irrisórios nos balcões piratas dos centros das grandes cidades, com todas as implicações sociais que isso suporta.

No meio de tudo isso se encontra o músico, o cantor, o compositor, a banda, o artista. Aquele que de uma hora para outra passou a ter um domínio muito maior sobre sua obra, mas que ainda não descobriu como comercializá-la bem nestes tempos, com exceção dos shows. No meio de tudo também temos as lojas especializadas que vão sucumbindo uma a uma, grandes e pequenas, megastore ou charmosas, familiares ou globalizadas.

O desafio da música que hoje, se faz ouvir ao mesmo tempo através de um computador com conexão a internet em qualquer lugar do mundo, é ainda ser lucrativa. Colocar em pen drive, em sites ou em dvds? Fazer como o Radiohead e deixar o consumidor escolher o preço? Vender os cds nos shows? Baixar o preço? Qual a saída? Enquanto essa alternativa não aparece, cabe ao artista ser inovador enquanto ao consumidor se enquadra a pergunta daquele mala do comercial das Casas Bahia: “Quer pagar quanto?”

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

"Palhaço" (Oswaldo Martins/Nelson/Washigton)

Sei que é doloroso um palhaço
Se afastar do palco por alguém
Volta, a platéia te reclama
Sei que choras, palhaço
Por alguém que não te ama
Enxugas as lágrimas
E me dê um abraço
E não te esqueças
Que és um palhaço
Faça a platéia gargalhar
Um palhaço não deve chorar

P.S: Canção brilhantemente interpretada pelo Luiz Melodia.